Kahlil Gibran 

 

 

 

As cartas de amor 
do Profeta 

Correspondncia (1908-1924) entre Kahlil Gibran e Mary 
Haskell, traduzidas e adaptadas livremente 

por Paulo Coelho 

 

 

 

 Edio especial da pgina www.paulocoelho.com.br , venda proibida 

 

 

 


PREFACIO DE PAULO COELHO 

 

 A primeira vez que li O Profeta foi durante os anos sessenta; usei um trecho 
do livro - que fala dos filhos - para tentar explicar aos meus pais quem eu era. Nesta 
poca pensava: Gibran  um revolucionrio. 

A segunda vez que li O Profeta foi durante os anos oitenta; queria relembrar a 
simplicidade e o vigor com que o livro fora escrito. Nesta poca pensava: Gibran  
um sbio. 

A terceira vez que li O Profeta foi durante os anos noventa. Agora eu j tinha 
alguns livros publicados, e entendia que nem sempre o esprito revolucionrio e as 
palavras sbias revelam o complexo mundo da alma de um escritor. Ento pensava: 
quem  Gibran? 

 A simples leitura de O Profeta no bastou, mas eu estava decidido a responder 
esta pergunta.. Reli algumas de suas obras, li duas biografias, at que uma amiga 
libanesa, Soula Saad, me fez descobrir suas cartas - hoje editadas em vrios livros, sob 
diversos formatos. 

Um homem revela sua alma quando ama, e na correspondncia com Mary 
Haskell encontrei o mundo interior de Gibran Kahlil Gibran. Comecei a marcar 
algumas frases, e copiar para um arquivo do computador aquilo que julgava ser sua 
essncia. Um dia, durante uma conversa com minha mulher (na verdade foi uma 
discusso, e dou graas a Deus que ainda discutimos muito, embora estejamos casados 
h dezoito anos), no consegui explicar determinado assunto; ento pedi que fosse at 
o computador, e lesse determinada carta de Gibran que talvez conseguisse demonstrar 
melhor o que eu estava querendo dizer. 

Ela no apenas leu a carta em questo, mas todo o resto do arquivo. Nasceu, 
neste momento, o desejo de editar mais um livro sobre a relao de Gibran com 
Haskell. 

 

 

 

Alguns detalhes histricos: Gibran nasceu em 1883, na aldeia de Bsherri, no 
atual Lbano. Com a idade de onze anos, emigrou para os Estados Unidos junto com a 
me e alguns irmos, entre os quais Mary Gibran. 

Dedicou a maior parte de sua vida adulta  pintura mas, como o destino  
irnico, terminou sendo conhecido mundialmente por causa de seus livros. Quando 
morreu, estava vivendo com Barbara Young - que mais tarde iria escrever uma 
biografia sua. 

Mary Haskell era mais velha que Gibran; nasceu em 1873, nos Estados Unidos. 
Com a idade de 30 anos, mudou-se para Boston e passou a cuidar da escola que sua 
irm havia fundado. Morreu em 9 de outubro de 1964, podendo testemunhar o sucesso 
mundial daquele que um dia chamara de meu amado. 

A correspondencia quase foi destruda dias depois da morte de Gibran; Barbara 
Young no queria que Mary levasse para sua casa as centenas de cartas, escritas em 
mais de 20 anos de relacionamento, guardadas numa grande caixa de papelo, no 
estudio do escritor. 


Mary insistiu. Barbara terminou concordando, mas antes fez Mary Haskell jurar 
que iria queimar tudo apos reler a correspondencia. 

Mary no cumpriu a promessa; as mais de seiscentas cartas esto hoje na 
Univerdade de Carolina do Sul, e podem ser consultadas por especialistas e estudiosos. 

 Uma parte muito pequena desta correspondncia est agora em suas mos. Para 
condensar uma idia, eu adaptei livremente o seu texto; procurei ser fiel ao pensamento 
de Gibran, e no as suas palavras literais. 

 

 

Quem  Gibran?, eu perguntava a mim mesmo. Ao copiar trechos de suas 
cartas para o meu computador, penso que terminei descobrindo. 

Gibran no era nem um revolucionrio nem um sbio. Era um homem, como 
todos ns - e trazia em sua alma as mesmas dores e alegrias que ns trazemos; 
entretanto, atravs de seus livros foi capaz de manifestar a grandeza de Deus. 

Penso que, no fundo, sabia que um dia toda a sua correspondencia confidencial 
seria publicada - e quis mostrar-se por inteiro, sem mistificar o seu papel de escritor. 

Com isto, nos deu um bom exemplo; todos ns podemos aspirar o que ele 
conseguiu, porque seguimos - a nossa maneira - o difcil e belo Caminho das Pessoas 
Comuns. 

 

 


 

 

 

 

Bem-aventurados vs que agora tendes fome, 
porque sereis fartos. 

Bem-aventurados vs que agora chorais, 
porque haveis de rir 

 Lucas, 6:21-22 


 

 

 

 

 Eu fui tocado pela sua 
presena desde a primeira vez que a vi; 
foi numa exposio de meus desenhos, no 
estdio do sr. Day. Voc estava usando 
algo de prata em torno do pescoo, e 
aproximou-se de mim, perguntando: ser 
que eu posso exibir alguns destes quadros 
na escola onde leciono? 

Eu concordei; e na medida que 
conversvamos, sentia-me melhor e melhor. 
Quando fui pela primeira vez at a sua 
casa, senti que a atmosfera do lugar - os 
livros, a maneira de arrumar a casa - 
tinha uma profunda identificao comigo. 
Gostei da maneira como conversamos, e do 
jeito suave com que voc me fez falar de 
mim mesmo. 

Voc fez muitas perguntas, e algumas 
vezes me senti encabulado; mas, graas ao 
seu esprito e inteligncia, terminei 
contando tudo que queria saber. 

As outras pessoas me acham 
interessante. Elas gostam de me ver falar, 
porque eu sou uma pessoa diferente. Para 


elas no passo de um divertimento, que 
logo ser esquecido quando algo mais 
curioso aparecer. Voc, entretanto, foi 
capaz de arrancar o que havia de profundo 
em mim, sensimentos que raramente 
compartilhei com algum. Isto foi timo -e 
continua sendo. 

 

Ficamos amigos. E um dia voc me 
perguntou se eu precisava de dinheiro para 
ir at Paris. At aquela data, sempre 
tinha recusado este tipo de ajuda, mas 
voc me disse algo sobre o dinheiro, que 
eu nunca vou esquecer: ele  impessoal, 
no pertence a ninguem, apenas passa por 
nossas mos. O dinheiro no  uma posse, 
mas uma responsabilidade, e cabe a ns 
dar-lhe o destino certo. 

 

 

Fui a Paris, sempre tendo ao meu lado 
a sua imagem, sua f, e sua ternura. Ali, 
eu reparei que, ao invs de ver apenas a 
cidade, estava estudando a mim mesmo, e 
vendo como a nossa relao comeava a 
afetar meu cotidiano. Mesmo com voc 
distante, sua presena me acompanhava por 


ruas, fraas, e cafs. Quando voltei, 
tornei a encontrar a mesma doce criatura 
que conhecera. 

 

 

Ento eu lhe pedi em casamento. A 
partir deste dia, voc comeou a ferir-
me. 

E continuou me ferindo. Eu sofria, 
mas cada vez que nos encontrvamos - nesta 
poca, a gente se via duas vezes por 
semana - voc falava: Kahlil, creio que 
lhe magoei na quarta-feira passada - ou 
na sexta, ou seja quando tivesse sido. 
Perdo. voc dizia. No pretendia fazer 
isto. 

Voc ento se tornava a criatura mais 
doce do mundo, e eu pensava comigo mesmo: 
esta  a Mary que eu amo. Entretanto, 
antes mesmo que aquele encontro acabasse, 
algo de brutal tornava a sair de sua boca. 

 Nada do que eu pudesse dizer ou 
fazer era capaz de impedi-lo; a agresso 
vinha, e quase me matava. 

Eu voltava para casa, e refletia:se 
eu aceito o sol, o calor, e o arco-ris, 
preciso aceitar tambm o trovo, a 


tempestade,e o raio. Eu tentava, mas 
sentia que coisas importantes estavam 
morrendo dentro de mim. 

Ento, certa noite - quando 
voltavamos de Gonfarone - voc disse que o 
fato de me ter dado dinheiro para a 
viagem criara uma grande distncia entre 
ns. Quando cheguei em casa, decidi 
conseguir aquele dinheiro de volta. Pedi 
emprestado, e fui at a sua casa para 
entrega-lo, mas voc havia viajado para 
Boston.ao voltar ao meu quarto, uma linda 
carta sua me esperava; e esqueci de novo 
as palavras agressivas. 

Outro problema nos aguardava. Quando 
estava conversando com voc no seu 
apartamento, seu irmo chegou. Notei que 
no tinha gostado de minha presena, e 
comecei a sentir-me desconfortvel. Dois 
dias depois, voc ainda estava triste com 
aquele encontro, e pressenti que seu irmo 
me considerava mais um estrangeiro sem 
escrpulos, interessado em obter vantagens 
materiais e sociais neste tipo de relao. 

Isto quase me destruiu. Mas de novo 
tornamos a nos encontrar, e seu encanto 
fez-me de novo acreditar que o 


desagradvel episdio com seu irmo tinha 
sido apenas um sonho ruim. Entretanto, 
alguma coisa mudara no meu corao, j que 
minha alma no podia estar sempre 
resistindo aos constantes ferimentos. Eu 
precisava me proteger, e passei a dizer a 
mim mesmo: qualquer relao mais ntima 
com esta mulher  impossvel. 

Claro que esta estratgia no 
funcionou, nem mesmo quando eu lhe disse o 
que acontecia comigo. Mas, a partir 
daquele instante, voc nunca mais me 
feriu. 

 

 

 

Tudo que estou contando,  apenas 
para que saiba como vi os nossos primeiros 
anos juntos. As coisas mais profundas 
jamais mudaram; a identificao que tive, 
o reconhecimento, a paixo do primeiro 
encontro - tudo isto continua igual, e 
assim continuar para sempre. Eu a amarei 
por toda a eternidade, como j a amava 
muito antes de ve-la pela primeira vez, e 
chamo isto de Destino. 


Nada pode nos afastar; nem eu, nem 
voc podemos mudar esta relaco. Eu quero 
que voc se lembre pelo resto dos seus 
dias, que voc  a pessoa mais importante 
do meu mundo. Que, mesmo que voc casasse 
sete vezes, com sete homens diferentes, 
tudo continuaria igual em meu corao. 

 

 

 

 

E hoje, tambm entendo que o nosso 
casamento era impossvel. Ele teria 
destrudo a ambos. Nossa vida em comum 
terminou sendo guiada de uma maneira 
diferente, e por isso fomos salvos. Voc 
me ajudou a descobrir a mim mesmo, e ao 
meu trabalho. Eu penso que fiz o mesmo com 
voc, e agradeo aos Cus por estarmos 
juntos. 

 

 

 

Kahlil Gibran 

 


 

 

Janeiro/1908  Abril/1924 


 

 

 

 23/6/1909 

 

Acabo de perder meu pai, minha amada Mary; 
ele morreu na mesma velha casa onde nasceu, h 65 
anos atrs. Seus amigos me escreveram, dizendo 
que ele me abenoou antes de fechar os olhos 
para sempre. 

Tenho certeza de que meu pai descansa no 
seio de Deus; mesmo assim, no consigo evitar a 
tristeza e a dor da sua ausncia. Sinto a mo da 
Morte na minha testa, e penso na minha me, na 
minha irm mais jovem, e no meu irmo - nenhum 
deles est mais aqui para sorrir com a luz do 
sol. Onde eles esto? Neste desconhecido para 
onde foram, ser que tornaram a se reencontrar? 
So capazes - como ns somos - de lembrar do 
passado? 

So perguntas tolas; sei muito bem que esto 
vivos em algum lugar no cu, mais perto de Deus 
do que estamos. Os sete veus - que separam o 
homem da Sabedoria - no esto mais cobrindo 
seus olhos, e meus entes queridos no brincam 
mais de esconde-esconde com a Verdade e a Luz. 
Mesmo assim, ainda sofro e sinto saudade. 

E voc  meu nico consolo, embora esteja do 
outro lado deste mundo, conhecendo o Hava. Os 
seus dias so as noites aqui de Paris. Mesmo 
assim, quando eu caminho voc est perto, quando 
eu trabalho voc conversa comigo, e quando sento-
me szinho para comer, sua presena surge ao meu 
lado. H momentos em que sei que no h distncia 
entre aqueles que se amam. 

 

31 Outubro 1911 

 

Mary, minha amada Mary, tenho trabalhado o 
dia inteiro, mas no podia ir para a cama sem 
antes lhe dizer boa noite. Sua carta mais 
recente  uma puro fogo, um corcel alado que me 
leva para uma ilha onde s consigo escutar 
msicas estranhas, mas que um dia compreenderei. 

Os dias tem sido cheios destas imagens, 
vozes e sombras - e h fogo tambm em meu 


corao, em minhas mos. Preciso transformar toda 
esta energia em algo que faa bem  mim,  voc, 
e s pessoas que nos so queridas. 

Ser que voc sabe o que  queimar, arder 
num imenso braseiro, sabendo que este incndio 
est transformando em cinzas tudo que existe de 
ruim, e deixando na alma apenas o que  verdade? 

Oh, no existe coisa mais abenoada que este 
Fogo! 

 

 

10 de novembro 1911 

 

H uma velha cano rabe que comea assim: 
S Deus e eu mesmo podemos saber o que se passa 
em meu corao. Hoje, depois de ler tudo que 
voc tem me escrito, eu poderia acrescentar: S 
Deus, eu e Mary podemos saber o que se passa no 
meu corao. 

Eu gostaria de abrir meu peito, tira-lo 
dali, e carrega-lo em minhas mos, para que 
todos pudessem ver. Porque no h desejo maior em 
um homem que revelar-se a si mesmo, ser 
compreendido por seu prximo; todos ns queremos 
que luz que colocamos atrs da porta, seja posta 
no meio da sala, na frente de todos. 

O primeiro poeta deste mundo deve ter 
sofrido muito, quando deixou de lado seu arco e 
sua flecha, e tentou explicar aos seus amigos do 
que havia sentido diante de um por-do-sol.  bem 
possvel que estes amigos tenham ironizado o que 
ele dizia, mas ele o fez assim mesmo, porque a 
verdadeira Arte exige que o artista tente 
mostrar-se. Ningum pode conviver szinho com a 
beleza que  capaz de perceber. 

E quanto a ns dois, que buscamos o 
Absoluto, e que construmos um jardim usando a 
nossa prpria solido, a Vida nos deixou a imensa 
paixo para aproveitar cada instante, com toda a 
intensidade. 

 

 

26 de novembro 1911 

 

Minha amada Mary, ser um verdadeiro Dia de 
Ao de Graas, porque voc est vindo aqui em 
casa! Pensei em convida-la, mas tive medo de 
ouvir um no, e pedi a Charlotte que o fizesse 


por mim.Ela me disse que voc concordou em 
participar. 

Ento, tudo que tenho feito nestes dias  
colocar minha casa em ordem. Estou arrumando os 
mveis, mas tambm estou limpando as coisas 
antigas do meu corao e dos meus pensamentos - 
libertando-os de velhas sombras que no devem 
estar mais l. 

Talvez o afastamento que fomos obrigados a 
aceitar durante estes dias tenha sido benfico; 
as coisas muito grandes s podem ser vistas  
distncia. 

 

 

7 de fevereiro 1912 

 

Meu corao est hoje sereno, e as angstias 
de sempre foram substitudas pela calma e pela 
alegria; vi Jesus num sonho, durante a noite. 

 A mesma face generosa, os grandes olhos 
negros que pareciam queimar a quem o encarava de 
frente, os ps empoeirados, as sandlias usadas. 
E a presena forte de Seu esprito, dominando 
tudo com a paz daqueles sabem olhar direito a 
Vida. 

Oh, querida Mary, por que no posso sonhar 
com Jesus todas as noites? Por que no consigo 
olhar para minha vida com a metade da calma que 
Ele era capaz de me transmitir durante o sonho? 
Por que no consigo encontrar ningum nesta Terra 
que possa ser to simples e to afetuoso como 
Ele? 

10 de maro 1912 

 

Mary, minha adorada Mary - em nome de Deus - 
como voc pode achar que me est dando mais 
sofrimento que alegrias? O que fez com que 
pensasse desta maneira? 

Ningum sabe direito qual  a fronteira 
entre a dor e o prazer; muitas vezes eu penso que 
 impossvel separa-los. 

Mary, voc me d tanta alegria que ela chega 
a doer, e voc me causa tanta dor que eu chego a 
sorrir. 

 

 

 

 

 25 Dezembro 1912 (DM) 


 

No posso planejar minhas horas de sono, de 
trabalho, ou de exerccio, Mary. Sempre ouvimos 
falar que todos so capazes de acordar, tomar 
ch, e ir para a cama num determinado horrio, 
todos os dias - e se orgulham desta disciplina. 

Para mim,esta gente est vivendo apenas o 
Mesmo Dia sempre. 

Eu preciso deixar que aconteam as coisas 
que precisam acontecer, ento  neessrio estar 
aberto para o inesperado. Eu sou difente a cada 
dia que passa e, quando tiver oitenta anos, 
espero ainda estar experimentando mudanas 
internas e externas. Se chegar a esta idade, no 
vou ficar pensando nas coisas que j fiz, porque 
quero usar cada poro de vida que ainda resta. 

No posso planejar nada de importante, s 
pequenas coisas. Quem planeja o que  importante, 
transforma tudo em pequenas coisas. 

 

 

 

 

 30 Outubro, 1913 

 

Por que voc tenta me explicar tudo que me 
diz? Meu corao pode entender alm das palavras 
que de amor. Ser que voc no confia na minha 
compreenso? 

E, por favor, por favor no pense que quem 
ama  ferido com facilidade. Um canivete de ao 
pode cortar minha carne, mas nunca um canivete de 
cera. Palavras e gestos duros apenas faro com 
que eu tome mais cuidado com o que sinto por 
voc. 

Tudo que for superficial em nossas brigas, 
terminar desaparecendo por si mesmo. Portanto, 
compreenda - Kahlil no  feito de creme de 
chantilly! 

Apenas uma metade minha est aqui em Boston; 
gostaria de tomar o trem para New york, e ve-la 
com meus prprios olhos. Voc no precisaria 
falar, nem mesmo sorrir; estar ao seu lado, me 
faz sentir um homem completo. 

 

 

 

 

 5 Abril 1914 


 

Tenho permanecido muito tempo em silncio, 
minha adorada Mary. Trabalho, durmo muito - e 
sinto que tanto o trabalho como o sono me tiram a 
vontade de conversar. 

A medida que os anos passam, mary, o ermito 
que habita em mim se revela com mais fora. A 
vida  a viso do Infinito, de todas as 
possibilidades e realizaes que o amor pode 
trazer. Entretanto, as pessoas parecem to 
pequenas diante desta simples verdade, e isto me 
afasta delas. 

A vida  generosa, e o homem  mesquinho. 
Parece que existe um abismo entre a vida e o ser 
humano e, - para atravessar este abismo -  
preciso ter coragem de tocar a prpria alma, e 
muda-la de direo. Ser que vale a pena? 

Aqui em New York, tenho encontrado apenas 
gente normal, educada, gentil. Elas esto 
flutuando entre o cu e o inferno, entre o Tudo e 
o Nada; entretanto, parecem que no se do conta 
disso, e vivem bem comportadas, sorrindo quando 
encontram algum. 

 

26 Abril, 1914 (DM) 

 

Sempre tive vergonha de aceitar seu 
dinheiro. Sempre me perguntei se era correto 
deixar que isto acontecesse. Muitas vezes eu quis 
partir, e deixar voc para sempre, mas ento 
pensava: ela j me deu tanto! Achar que sou um 
homem ingrato. O fato de ter que depender da sua 
caridade era, para mim, uma maldio e uma 
tortura. 

Voc me dava com alegria, e eu aceitava com 
tristeza. Agora, entretanto, prometo nunca mais 
agir assim; se me der, est tudo bem. Se no me 
der, est tudo bem. Se me der e me pedir de 
volta, tambm est OK. 

Tenho medo de aceitar presentes. Os 
presentes nos deixam culpados, e nos fazem sofrer 
- pensando que algo ser pedido em troca. S 
agora entendo que este dinheiro significava o 
quanto voc tinha f em meu trabalho, e no homem 
que sou. 

No entanto, mais do que o dinheiro, voc me 
deu literalmente o dom da vida. Eu no poderia 
ter vivido sem esta paixo, sem este amor; quanta 
gente morre todos os dias, porque no encontra 
uma pessoa que a ame. 


 

 

 3 Maio, 1914 

 

As benos do domingo que passamos juntos 
ainda permanecem na minha alma. Eu j revivi 
milhares de vezes as horas que estivemos lado a 
lado; repeti sem parar as palavras que voc me 
dizia, e - cada vez que fazia isto - parecia que 
as entendia melhor. 

Quando ouo sua voz, a doura e a realidade 
da vida reaparecem. Cada vez que abro minha boca 
para responder algo, sinto-me estranhamente 
lcido e confiante. 

Voc  capaz de fazer com que eu coloque 
minha mo na parte mais brilhante e luminosa de 
mim mesmo. 

 24 Maio 1914 

 

Pense, Mary, se estivessemos caminhando por 
um belo campo, num dia lindo, quente, e - de 
repente - fossemos colhidos por uma tempestade no 
meio do passeio. 

Que maravilha seria! Existe emoo maior que 
ver os elementos produzindo fora e energia, 
atravs do movimento nos cus? Vamos deixar para 
trs as quatro paredes de nossos quarto, Mary. 
Vamos andar por lugares solitrios, e conversar 
um pouco. Eu s posso entender a mim mesmo quando 
comento algo com voc. Eu j disse isso antes, e 
repetirei sempre. 

 

 

 20 Junho, 1914 (DM) 

 

Quero mostrar-lhe a coisa mais importante 
que eu jamais pintei em minha vida, Mary: um 
retrato- feito de memria - da minha me. 

 um retrato de sua alma - sem truques 
estticos ou tcnicos. Ele manifestou-se 
exatamente da forma que eu queria que se 
manifestasse. Sua alma est ali, em sua magestade 
simples. 

Eu s consigo ver minha me quando fecho os 
olhos; na verdade, a pintura  uma extenso da 
viso, como a msica  uma extenso da audio. 
Quando crio algo, desejo que alguem pense: 
existem outros mundos, silenciosos, remotos, 


solitrios, distantes - onde a vida se mostra com 
toda a sua intensidade. Vamos at l. 

 

 

 

 

20 Junho 1914 (DM) 

 

Creio que  um erro seu, recusar-se a ter um 
contacto mais ntimo, Mary. Um homem, em sua 
paixo,  guiado por tres coisas: a lgica, o 
corao, e o sexo. Cada uma destas coisas o 
conduz durante um determinado perodo; a lgica e 
o corao me conduziram durante muitos anos. Mas 
agora, o desejo sexual aparece. 

Voc me diz: querido Kahlil, vamos deixar o 
amanh para o amanh. E, nestas horas, eu me 
sinto pequeno e ingnuo. Voc trata coisas 
importantes como se no fossem nada. 

Eu a amo. Eu a desejo mais do que voc a 
mim. Cada vez que a encontro, voc preenche todo 
o espao a minha volta. 

Eu a amo, e sei que que o contacto fsico 
tem a sua hora. Depois, este momento desaparece. 

No quero que nada de grande entre ns 
termine desaparecendo, porque no sabemos o que 
pode acontecer depois disso. Nossa relao j  
forte o suficiente, mas no sei onde podem levar 
os limites que so impostos ao amor. 

Entretanto, eu me coloco em suas mos. Um 
homem s pode se colocar nas mos de algum 
quando o amor  to grande, que o resuldado desta 
entrega  a liberdade total. 

E eu a amo com tudo que existe em mim. A 
ponta dos meus cabelos, a beira de minhas unhas, 
tudo est repleto deste amor por voc, Mary. 

 

 

8 Julho 1914 

 

Voc tem o dom da compreenso, minha amada 
Mary. Voc  como o Grande Esprito, que se 
aproxima do ser humano no apenas para dividir 
seus dias com ele, mas para fazer com que sejam 
mais intensos. Quando a conheci, o milagre deste 
seu dom fez com que meus dias e noites mudassem 
por completo. 

Sempre pensei que, quando algum nos 
entende, termina por nos escravizar - j que 


aceitamos tudo para sermos compreendidos. No 
entanto, sua compreenso trouxe-me a paz e a 
liberdade mais profunda que j experimentei. Nas 
duas horas de sua visita, voc descobriu um ponto 
negro em meu corao; tirou-o do meu peito, 
tocou-o, e ele desapareceu para sempre - 
quebrando as correntes que me aprisionavam. 

Que Deus te abenoe. 

 

 

 

 

22 Julho 1914 

 

 

Voc me diz: vejo muitos recebendo coisas 
boas de ti, porque foste capaz de sofrer. Sua 
carta foi mais uma importante mensagem para mim, 
amada Mary. 

Espero que esteja aproveitando seus dias de 
solido na montanha;  delicioso estar livre de 
tudo que no  verdadeiro, e ser capaz de viver 
de uma maneira simples e direta. 

Entretanto, eu estou a, e espero que isto 
seja to real para voc como  para mim. 

Tenho andado silencioso, pensativo, e h 
muitas coisas novas emminha alma. Gostaria de 
poder dar-lhes forma, mas minhas mos no 
conseguem acompanhar minha imaginao. 

Fico contente em saber, amada Mary, que ns 
dois somos capazes de deixar este mundo para 
trs, e procurar o verdadeiro mundo, onde podemos 
viver e ser o que sempre desejamos. 

Boa noite, querida Mary. Que Deus a abenoe. 

 

 

 

 

7 Agosto 1914 

 

Estou nesta estranha cidade de Boston h uma 
semana. No consigo trabalhar ou pensar, por mais 
que tente. Continuo cercado daquela gente 
educada, mas com quem tenho muito pouco em comum. 

Algo deve estar acontecendo comigo, Mary. Eu 
vejo as pessoas, e eu sei que suas almas so 
boas. Mas, quando estou com elas, sou tomado de 
uma impacincia demonaca, um desejo estranho de 
feri-las. Quando elas falam, minha mente tenta 


afastar-se e voar por terras distantes, e sito-me 
como um pssaro que tem uma longa corda atada a 
seus ps. 

Ento me lembro dos meus compatriotas 
srios, e tenho conscincia de que me incomodam 
muito menos, porque so pessoas simples, e porque 
no ficam o tempo todo tentando parecer 
interessantes. 

As pessoas que se esforam para serem 
interessantes, so as mais aborrecidas de todas. 

14 Outubro 1914 

 

Esta guerra que agora assola a Europa atinge 
todas as pessoas do mundo; voc e eu tambm 
estamos lutando ali. 

O homem  parte da natureza. Todo ano, os 
elementos da natureza declaram guerra contra si 
mesmo: o inverno luta contra as foras da 
primavera, e isto  to destruidor como as 
guerras humanas. Tambm ns passamos por este 
processo, e muitas vezes precisamos morrer por 
algo que no compreendemos bem. 

Aqueles que lutam por uma paz eterna, so 
como os jovens poetas que no querem que a 
primavera termine nunca. Um homem precisa 
aprender a lutar por suas idias e por seus 
sonhos, porque isto tambm  parte do que Deus 
colocou no planeta. 

Ningum chora quando chega o inverno, nem 
dana quando a primavera comea a mostrar as 
flores do campo. Existe gente que gosta mais das 
noites frias do que do vero. Seria justo dizer a 
estas pessoas: voc no tem corao, voc est 
vendo a natureza ser destruda pelo frio, e no 
est chorando. A glria e a beleza do vero esto 
morrendo, e voc parece indiferente. 

Por isso esta eterna luta, Mary. 

Entretanto, no existe o que tentam chamar 
de luta pela morte. Tudo que acontece nesta terra 
 uma luta pela vida. 

 

 6 Dezembro, 1914 

 

Voc me disse em sua carta : que Deus te 
abenoe, e esteja contigo. Quanto mais cansado 
voc estiver, mais prximo Ele estar. 

Estive desde manh endereando envelopes 
para a minha exposio. Coloquei o preo de U$ 
2.500 no quadro A Grande Solido. Pensei que 
ningum iria querer comprar algo de um artista 


desconhecido, mas esta manh a Sra. Wilson passou 
aqui, e diz que ir pagar o que peo. 

Voc no acha que esta pintura  uma da 
muitas coisas que devemos abrir mo, de modo a 
poder chegar em lugares mais distantes? 

Estas pinturas no so mais parte da minha 
vida. Enquanto eu trabalhava nelas, aprendi 
muito. Aprenderei mais ainda, se deixa-las seguir 
seus caminhos. 


(no dia 20 de dezembro de 1914, Mary Haskell 
escreve em seu dirio) 

 

No almoo, perguntei a Kahlil se ele gostava 
dos cinco quilos que engordei, depois que - em 
Setembro -ele me sugeriu que fizesse isso. Ele 
respondeu que no havia notado. 

De volta ao seu estdio, eu pressionei a 
saia em torno de minha perna, de modo que pudesse 
ver sua forma. Esto finas?  perguntei. 

Estou surpreso, respondeu ele. Nunca vi 
sua perna, e sempre procurei imagina-la usando o 
seu brao como referncia. As pessoas geralmente 
fazem isto. 

Estou sempre completamente vestida, 
respondi. Perguntei se ele queria que me 
despisse, e julgasse por si mesmo o meu corpo. 
Se este quarto no estivesse to frio, eu iria 
pedir que fizesse isto, disse ele. 

Ns aumentamos a calefao, e eu tirei a 
roupa. Voc em um corpo saudvel, forte e 
perfeito, ele comentou. 

Notei que a minha nudez o havia tocado. 

Os homens tem medo de mulheres como voc, 
disse Kahlil. Eles no gostam de sentir-se 
perturbados. 

Eu me vesti de novo, porque no queria que a 
idia de sexo viesse a tona. Kahlil colocou os 
braos em torno de mim, e beijou-me. Continuei 
sentindo este beijo por tres dias seguidos. 

 


 

 28 Dezembro, 1914 (DM) 

 

Existe alguma coisa em seu pensamento, Mary? 
Parece que h algo que no consegue resolver. 

Esta situao (sexo) no est resolvida. E 
nunca estar. Nos estamos aceitando algo nocivo 
porque no h outra soluo; s se resolvem 
aquelas situaes que so reais, e nossa falta de 
liberdade no  real. 

Naquela noite, depois que voc vestiu-se e 
partiu, eu gritei por voc o resto do tempo. 
Estamos deixar passar algo que faz parte de uma 
relao entre pessoas normais e intensas. 

No posso me lembrar do que houve como se 
fosse algo apenas acidental; se estivessemos 
apenas apaixonados, talvez eu conseguisse 
esquecer o que houve. Mas o amor - o verdadeiro 
Amor -  tmido diante do contacto fsico. Eu 
pensarei no que aconteceu durante dez dias, 
porque  algo importante e fundamental - como  o 
sexo na vida de algum. 

E decidi que voc e eu no devemos mais 
conversar sobre isto, porque no temos a 
liberdade de dizer tudo o que sentimos. 


(no dia 31 de Dezembro de 1914, Mary Haskell 
escreve em seu dirio) 

 

As 8:30, K. chegou. Ns nos sentamos no 
sof, e eu pedi que tirasse o seu colarinho. Ele 
deitou-se e estendeu o brao; eu deitei ao seu 
lado , com minha cabea em seu ombro. 

Ficamos em silncio. Eu coloquei meu brao 
por debaixo do seu casaco. Tudo que ele fez, foi 
perguntar-me se eu estava pegando fogo. Sim,, 
respondi, porque estou sentada ao lado do 
forno. Ele riu: sou eu o seu forno? disse. 

Contei a Khalil que o encanamento de gua 
quente havia quebrado. uma pea to resistente, 
que mesmo um trem passando por cima no 
conseguiria destruir, rachou por causa de algumas 
gotas dgua que congelaram no seu interior. Isto 
tinha me feito pensar que muitas outras coisas 
tem a mesma invencibilidade e poder. 

Eu passeava minha mo sobre sua bela face, 
sentindo que tocava um jardim de flores. Quando 
meus dedos tocaram seus lbios, ele segurou-os. 

Da mesma maneira que os jovens se abraam, 
nos nos abraamos. Sua mo estava sempre em meu 
corpo - as vezes parada, as vezes movendo-se para 
cima ou para baixo. E ele me beijou a boca, com 
paixo. E assim foi. 


 

 

Jan, 28, 1915 

 

Dormi muito durante estas tres semanas. 
Tenho pensado nas milhares de coisas que preciso 
fazer este ano; tenho medo, minha amada Mary, que 
nunca conseguirei realizar plenamente os meus 
sonhos. Sempre paro antes. Sempre atingo apenas a 
sombra daquilo que desejo. 

Eu costumava ter prazer ao ver as pessoas 
elogiando meu trabalho - mas agora isto me 
entristece, porque cada elogio me recorda daquilo 
que ainda no fiz, e eu gostaria de ser lembrado 
por aquilo que ainda me falta fazer. Sei que isto 
deve soar infantil, mas e da? 

Ontem a noite, em dizia para mim mesmo: a 
conscincia de uma planta no meio do inverno no 
est voltada para o vero que passou, mas para a 
primavera que ir chegar. A planta no pensa nos 
dias que j foram, mas nos que viro. Se as 
plantas esto certas de que a primavera vir, por 
que ns - os humanos - no acreditamos que um dia 
seremos capazes de atingir tudo o que queramos? 

 

 

 

 

 

9 de Fevereiro,1915 

 

Minha amada Mary, voc talvez no entenda o 
meu silncio. Entretanto, sinto que voc tambm 
est quieta, estes meus dias silenciosos so 
tambm seus. Saiba, porm, que  impossvel para 
mim fazer qualquer coisa sem voc - e que eu 
preciso de seu esprito na minha vida diria. 

Num dia frio destes, encontrei Ryder num 
quarto quse sem calefao. Tudo estava sujo e 
desarranjado ao seu redor, mas sinto que ele 
resolveu viver apenas da maneira que sempre 
desejou. Tem dinheiro, mas no pensa nisto; sua 
mente no est mais neste planeta, e vaga alm de 
seus prprios sonhos. 

Ele leu um poema que escrevi, e chorou. 
Ento disse:  belssimo.  demais para mim. Eu 
no sou digno de le-lo. 

Ficou em silencio um pouco, e tornou a 
falar: 


J pensei em mandar uma carta para voc, 
mas nunca fiz isto, porque  necessrio esperar 
que minha alma se mova de lugar, antes que eu 
escreva. 

 

 

 

14 de maro 1915 

 

A vida no  apenas uma histria contada 
por um idiota, cheia de som e fria, mas que no 
significa nada, como dizia MacBeth. A vida  um 
longo pensamento. Mas - no sei porque - no 
gosto de compartilhar este pensamento com os 
outros. Eles o puxam para um lado, e eu para 
outro, e ningum aguenta esta luta mental por 
muito tempo. Mary, uma das muitas coisas que nos 
aproximaram foi que ns puxamos o Pensamento da 
Vida para o mesmo lado, e no tememos a solido 
que isto acarreta. 

Devo sair agora, e caminhar pelo sol. 
Levarei meu caderno de notas, para escrever para 
voc; quando fao isto, sempre consigo colocar 
minhas idias em ordem. 

 

 

 

18 de abril 1915 

 

Sim, Mary, estes dois dias que estivemos 
juntos foram magnficos. Quando falamos sobre o 
passado, sempre tornamos mais real o presente e o 
futuro. Por muitos anos, tive pavor de olhar 
aquilo que vivi - um medo causado pela falta de 
objetividade e franqueza comigo mesmo. Como seria 
bom se eu tivesse a coragem de abrir meu corao, 
e falar de Dor. Eu sempre sofri em silncio, - e 
o silncio nos faz sofrer mais profundamente. 

Mesmo assim,  muito mais confortvel para 
as pessoas no falar; costumamos nos confundir 
quando tentamos organizar nosso pensamento. 
Apenas quando estou com voc, isto no acontece: 
as conversas nos aproximam, apagando tudo aquilo 
de ruim que ficou esquecido num canto empoeirado 
de nosso inconsciente. 

O nico silncio que experimentamos juntos, 
 aquele que nos faz compreender tudo. Os outros 
silncios so cruis e desumanos. 


Que Deus a abenoe, minha amada Mary. Que 
Deus nos mantenha juntos. 


( em 18 de abril, Mary Haskell escreve a 
Kahlil Gibran sobre o silncio) 

 

 

Penso que nunca acreditei nas poucas 
palavras de amor que me disseste, ou nas muitas 
que no ousaste pronunciar; como era complicada 
minha maneira de te amar! Agora entendo o quanto 
te fiz sofrer, e quanta coisa joguei fora para 
mante-las longe de ns. 

Por alguns momentos, acreditei que tudo o 
que foi afastado jamais retornaria. Ento 
perguntei as nossas almas se tinha razo. No 
escutei nenhuma resposta imediata, mas logo a 
viso de uma montanha apareceu diante de mim. E 
eu entendi que a culpa no tinha sido do meu 
corao, mas da falta dele. 

Peo perdo por tudo que tentei destruir, e 
pela dor que te causei. Meu amado Kahlil, parece 
que no escrevo para voc, mas com voc.E os dias 
so mais tranquilos, porque voc est sempre ao 
meu lado. 

Nas Sierras, onde quer que se v, pode-se 
escutar sempre o barulho da gua correndo nos 
rios. Da mesma maneira, onde quer que eu esteja, 
posso perceber os teus sentimentos fluindo por 
meu corao. 

Que Deus te abenoe, que Deus nos abenoe. 


23 de maio 1915 

 

Eu sempre quis me referir a voc como a vida 
que cria a Vida; mas nunca me permiti. Achei que 
voc no queria que disesse isto. Entretanto, 
sinto que finalmente chegamos a um momento 
importante entre ns. 

Quando nos encontrarmos, falaremos muito 
disso - no como se fosse uma coisa nova, mas 
algo antigo que est sendo vivido de uma nova 
maneira. 

Sempre acreditei, Mary, que a Revelao  
apenas a descoberta de algo maior que j existe 
em ns mesmos, uma parte de ns que no ousamos 
penetrar - e que, entretanto, se permite 
experimentar o que no ousamos sentir. 

Nosso crescimento reside no fato de entrar 
em contacto e aceitar esta parte mais generosa de 
ns mesmos. 

 

 

 

 

17 de julho 1915 

 

Voc e eu - e todos que nasceram com nsia 
de viver, estamos procurando tocar os limites de 
nossa existncia no apenas atravs do 
conhecimento; nosso desejo  viver esta 
experiencia. E o Esprito deste mundo, mesmo que 
esteja sempre mudando,  o Absoluto. 

Os grandes poetas do passado sempre 
entregavam-se a Vida. Eles no procuravam uma 
coisa determinada, nem tentavam desvendar 
segredos; simplesmente permitiam que suas almas 
fossem governadas, guiadas, movidas pela 
Existncia. As pessoas estao sempre buscando 
segurana, e as vezes conseguem; mas a segurana 
 um fim em si, e a Vida no tem fim. 

Sua carta, Mary,  a mais bela expresso de 
vida que j recebi.  uma demonstrao do sagrado 
desejo de encontrar o Mundo, e - ao encontra-lo - 
esperar que esteja n. Assim  a alma dos poetas 
da vida 

Poetas no so aqueles que escrevem poesia, 
mas todos os que tem o corao cheio deste 
esprito sagrado. 

 

2 de Agosto 1915 


 preciso fazer todo o esforo possvel para 
libertar-se do passado; temos que olhar o dia 
de ontem como uma me que, embora ainda tenha a 
face contorcida de dor aps o parto, est feliz 
por aquilo que conseguiu. 

Tivemos cinco longos anos de profundo 
sofrimento, mas estes foram anos muito 
criativos. Ns crescemos enquanto o 
atravessvamos, mesmo que eles cobrissem nossos 
corpos de cicatrizes. 

Emergimos desta poca com mais fora e com 
mais simplicidade de alma. Sim, nossas almas 
esto mais simples, e isto foi nossa maior 
conquista. Todos os trgicos processos da vida 
humana -e esta guerra na Europa  um deles - 
trabalham no sentido de ajuar o homem a 
simplificar sua alma. 

 Eu creio que Deus  o mais simples de 
todos. 

Voc sabe, Mary, que toda e qualquer relao 
humana  dividida em estaes. Os cinco anos 
passados foram a estao de nossa amizade. Agora 
estamos no comeo de uma nova poca, menos 
nebulosa, mais simples, e mais capaz de nos 
ajudar a simplificar quem somos. 

Quem pode dizer: esta poca foi boa e esta 
poca foi m? Todas as estaoes fazem pazte da 
natureza. A morte  parte da vida. E, apesar de 
eu ter morrido muitas vezes durante estes cinco 
anos, estas marcas no esto mais em mim, e meu 
corao no carrega nenhuma amargura. 

9 de Dezembro 1915 

 

Mil vezes obrigado por estes livros 
magnficos de Astronomia; nunca me interessei 
pelo assunto, mas agora vejo que  a melhor 
maneira de compreender o homem. A nossa viso  
to limitada que precisamos que a Astronomia nos 
carregue para alm de nossa tribo, nossa raa, 
nosso pas. Quando nossas mentes, todas juntas, 
se tornarem conscientes de outros mundos e outras 
esferas, no prestaremos mais ateno aos 
comentrios dos vizinhos. 

Trabalho todos os dias. Ah, Mary, eu 
gostaria de arrebentar meu corao, para que 
pudessem sair dali todas as coisas que esto 
presas. Minhas mos so estpidas, tmidas, 
desconhecidas. Nossos coraes so muito melhores 
que ns mesmos e - entre entre os sentimentos e 
as maneiras que temos para descrever estes 


sentimentos, existem mil vus. Quando algum 
consegue trabalhar de dentro para fora, vive num 
estado de constante renascimento.  uma 
reconstruo diria de si mesmo - e, como voc 
disse muito bem, o dia de ontem j aconteceu h 
mil anos atrs. 

Lendo suas doces e queridas cartas, sinto-me 
como uma planta crescendo em direo a luz. E 
esqueo minhas prprias sombras. 

Acrdite, Mary, que um dia eu serei o homem 
para quem estas cartas so escritas. Eu quero ser 
este homem que voc pensa que sou - com toda a 
fora do meu corao e de minha alma. 

 

6 de janeiro 1916 

 

Estive pensando em escrever, dar forma, 
manifestar os nicos pensamentos que realmente 
mudaram minha vida interior - Deus, o Mundo, e 
alma do homem. Sinto que uma voz est tomando 
forma dentro de mim, e estou agora 
esperandoescuta-la. Meu nico desejo  encontrar 
a maneira exata, a vestimenta certa para que o 
que esta voz tem a dizer chegue aos ouvidos 
humanos. 

 belo poder falar com os outros sobre Deus. 
No podemos entender inteiramente a natureza de 
Deus porque no somos Ele, mas podemos ao menos 
preparar nossa conscincia para crescer, usando 
Suas manifestaes visveis. 

 

Janeiro 30, 1916 

 

comeo a ter uma nova compreenso de Deus, 
querida Mary, que est comigo dia e noite, e 
interfere em todos os meus passos.  como se, 
pouco a pouco, meus olhos estivessem presenciando 
o nascimento do Criador. Eu O vejo nascendo como 
uma bruma, do meio das montanhas, das plancies, 
e dos mares. Ele levanta-se. Ele ainda no Se 
conhece inteiramente. Milhes de anos de passam, 
e Ele - movido por Seu prprio desejo - procura 
descobrir mais de Si mesmo. Para isto cria o 
homem. 

Deus no  (apenas) o criador do homem ou da 
Terra. Tampouco  juiz daquilo que acontece 
debaixo do sol. Deus  a manifestao pura deste 
Seu prprio desejo original - de que o homem e a 
Terra faam parte Dele. Deus  uma fora em 


movimento, que cresce atravs deste desejo, e faz 
com que tudo sob a face da Terra cresa com Ele. 

O desejo  a fonte do poder que tudo muda. 

 

10 de Fevereiro 1916 

 

Voc acredita, minha amada, que eu ainda 
tenho no banco dinheiro suficiente para viver um 
ano inteiro? E, entretanto, voc continua a me 
dar, e me dar sem limite. 

Tenho vivido em completo extase. A nica 
coisa que meu corao no sabia, era amar a Vida. 
Por vinte anos, vivia apenas sentindo uma imensa 
fome, uma imensa sede por algo que no conseguia 
compreender o que era. 

Mas as coisas mudaram. Esteja onde estiver, 
execute o trabalho que for, vejo presente a 
generosa lei que transforma nossas aes em 
flores, e transforma estas flores em Deus. 

Esta fome, que me acompanha por tantos anos, 
era a vontade de enxergar o que estava alm de 
mim. Tentei de diversas maneiras, e agora 
encontrei o nico caminho certo: atravs de Deus. 

A alma procura Deus, como o ar quente busca 
as alturas, e os rios correm para o mar. A alma 
tem dois poderes: o desejo de buscar, e a 
capacidade de lutar por este desejo. 

E a alma nunca perde seu caminho, da mesma 
maneira que a gua no corre montanha acima. Por 
isso, todas as almas estaro em Deus, no importa 
quanto tempo isto demore. 

O sal no perde suas propriedades, mesmo 
quando misturado a todas as guas do oceano. A 
alma no perde esta fome de Deus; ela  eterna, e 
um dia ser saciada. 

A alma jamais deixara de buscar a Deus. E 
quando encontra-Lo, ir descobrir que Ele tambm 
a estava buscando. 

1 de maro 1916 

Minha amada Mary, sinto-me como uma semente 
no meio do inverno, sabendo que a primavera se 
aproxima. O broto romper a casca, e a vida que 
ainda dorme em mim haver de subir para a 
superfcie, quando for chamda. 

O silncio  doloroso. mas  no silncio que 
as coisas tomam forma, e existem momentos em 
nossas vidas que tudo que devemos fazer  
esperar. Dentro de cda um, no mais profundo do 
ser, est uma fora que v e escuta aquilo que 


no podemos ainda perceber. Tudo o que somos hoje 
nasceudaquele silncio de ontem. 

Somos muito mais capazes do que pensamos. 
H momentos em que a nica maneira de aprender  
no tomar qualquer iniciativa, no fazer nada. 
Porque, mesmo nos momentos de total inao, esta 
nossa parte secreta est trabalhando e 
aprendendo. 

Quando o conhecimento oculto na alma se 
manifesta, ficamos surpresos conosco mesmos, e 
nossos pensamentos de inverno se transformam em 
flores, que cantam canes nunca antes sonhadas. 

A vida sempre nos dar mais do que achamos 
que merecemos. 

 

9 de Abril 1916 

 

Minha amada Mary, quando a alma est 
mergulhada em pensamentos que mudam sempre, 
perdemos o poder das palavras. Mas, embora a 
minha lenta compreenso de Deus tenha me 
acompanhado por todos estes meses, nunca deixei 
de estar com voc, e sempre tive certeza de que 
ns dois nos falamos atravs deste silncio 
exterior. 

Precisamos de uma companhia para conversar 
de madrugada, ou durante os longos passeios no 
parque. Mesmo distante, voc tem sido esta 
companheira. 

Trabalho muito -e procuro receber o mnimo 
de visitas. O abismo entre eu e os outros est 
crescendo cada vez mais. As vezes eu penso: este 
abismo existe porque h algo de errado comigo. 
Quando o que est errado se transformar em certo, 
ento eu estarei de novo junto as pessoas, e 
serei capaz de ama-las com um novo tipo de amor. 

10 de Maio 1916 

 

Querida Mary: 

estou lhe enviando uma parbola que 
terminei. Tenho escrito pouco, e apenas em rabe. 
Gostaria de ouvir suas correes e sugestes: 

 

 

Na sombra de um templo, meu amigo me apontou 
um cego. 

Meu amigo me disse: este  o homem mais 
sbio do mundo. 

Nos aproximamos, e perguntei:desde quando 
o sehor  cego? 


Desde que nasci. 

Eu sou um astrnomo comentei. 

Eu tambm, o cego respondeu. E disse, 
colocando a mo no peito: fico observando aqui 
dentro os muito sis e as muitas estrelas. 

16 de maio 1916 

 

Querida Mary: 

obrigado pelas correes. Tenho outras 
histrias, mas no sei como coloca-las para fora, 
porque o ingls no  uma boa lngua para 
parbolas. 

Desde que a nova concepo de Deus instalou-
se na minha alma, eu quase perdi a capacidade de 
comunicar-me por escrito. 

Um homem, em um avio, ve a Terra de um 
angulo diferente, mas com os mesmos olhos. Tenho 
que mudar os olhos, para que possa ver as coisas 
como elas realmente so. 

19 de dezembro 1916 

 

Querida Mary: 

obrigado por suas cartas durante todo este 
tempo - por cada palavra escrita, e pelo esprito 
divino que habita em cada uma delas. Que Deus me 
faa digno de recebe-las. 

Quando a mo da Vida  pesada, e no se 
escutam canes durante a noite, a nica coisa 
que nos alivia  acreditar e confiar no amor. 
Ento, mesmo nas piores circunstncias, tudose 
torna mais leve, e algumas melodias surgem na 
escurido - porque estamos amando e confiando 
neste amor. 

Obrigado pelo meteorito que me enviou. 
Costumo toca-lo e pensar que, nas minhas mos, 
est algo que veio de milhes, milhes de 
quilmetros de distncia. 

Este precioso meteorito enche minha 
imaginao, e faz o infinito menos estranho  
minha alma. 

 

 

 

 

 

28 de julho 1917 (DM) 

 

Eu sento-me ao lado de uma pessoa num 
jantar; em todos daquela mesa, existe uma 
profunda solido, e cada um ali gostaria de poder 


falar um pouco de si mesmo. Ento comeo a 
conversar com uma mulher, e a deixo falar. Depois 
de algum tempo ela comenta: finalmente achei 
algum que me compreende!. 

A ela me pede para que volte no proximo 
jantar. Eu recuso a primeira e a segunda vez; na 
terceira, eu geralmente vou, porque no quero ser 
indelicado. Passo a notar que esta mulher quer 
que eu faa parte da vida dela - deseja me ver 
mais, falar mais de si mesmo, dos seus dias 
iguais, dos seus problemas. Se ela  casada, 
sempre comenta: meu marido  uma boa pessoa, mas 
ele no me escuta.  como viver com um estranho 
aps tantos anos, etc.E continua a falar. 

Eu no quero que estas coisas sempre se 
repitam em minha vida! Chega de tentar entender 
as pessoas. eu me interesso por elas, mas num 
apecto mais amplo, como parte do universo.  
importante que gostem de mim, mas no posso 
deixar que este tipo de afeto d aos outros o 
direito de possuir-me. 

Com voc as coisas so diferentes, porque 
so belas e intensas, e eu desejo entregar-me. 
Muitas vezes, ns nem comeamos a falar, e j 
compreendi o que voc disse, j estou no final da 
sua frase. 

No creio que isto dependa do tempo em que 
estamos juntos, mas da capacidade que tivemos de 
crescer durante este tempo. 

31 de Outubro 1917 

 

Sim, minha adorada Mary, ns compreendemos 
sem saber que compreendemos, e vivemos algo que - 
em nosso consciente - no podemos explicar. 

A realidade da nossa relao,  a presena 
da Realidade que gira a nossa volta. 

Mesmo quando estamos duvidando de algo, o 
nosso corao no duvida. Mesmo quando dizemos 
Nopara a vida, o que o Universo escuta  um 
sim. 

No que se refere a novas experincias, o 
no s pode ser ouvido pelos homens. Deus 
sempre escuta Sim! 

 

 

 

15 de novembro 1917 

 

 


Minha amada Mary: 

obrigao pelo aucar e pelos livros; hei de 
consumi-los com muito cuidado. 

Engraado que nunca tive prazer em ler 
livros sobre sexo. Talvez eu no tenha sido 
curioso o bastante, ou tenha uma mente tmida 
demais. Mas agora eu desejo saber tudo que 
acontece debaixo do sol, das estrelas, ou da 
lua. Pois todas as coisas so belas, e se tornam 
ainda mais belas quando no temos medo de 
conhece-las e experimenta-las. 

A experincia  a Vida com asas. 

 

 

6 de Janeiro 1918 (DM) 

 

Eu pergunto (sobre a me de Jesus) o quanto 
ela sabia a respeito do seu filho? Ela devia 
estar consciente que ele era uma fonte de 
problemas, mas era um sujeito bom. Depois da sua 
morte, e talvez por causa da devoo de seus 
amigos e seguidores, Maria deve te-lo 
compreendido melhor do que enquanto estava vivo. 

Um dia vir que seremos capazes de entender 
Cristo como a Chama - onde ardia toda a 
intensidade da vida. Scrates podia ter uma 
excelente relao mental com seus discpulos, mas 
Jesus permitia que seus apstolos o sentissem. 
Veja o que ele vez com eles; Joo tornou-se um 
poeta de primeira linha, Paulo correu o mundo. 

Michelangelo apenas foi melhor do que os 
pintores que vieram antes dele - mas o caminho 
que percorreu j era conhecido. 

Cristo mudou o pensamento humano, e atravs 
dele, os homens descobriram um novo caminho. 

6 de Janeiro 1918 (DM) 

 

Um esprito supremo sempre nasce com uma 
misso, e pensa que todos os outros homens tambem 
a possuem. Anos sem passam, at que se de conta 
que est s, e nem todos os seres humanos so 
capazes de deixar que sua razo de viver se 
manifeste. Em oitenta por cento dos casos, as 
pessoas renunciam  Vidia que desejaram quando 
crianas. 

A partir da, aquele que segue sua misso 
pensa que est s, e esta descoberta o torna 
amargo e cnico. Aos poucos, ele se isola; seu 
mundo interior se afasta deste mundo, e termina 
seus dias solitrio, no importa onde viva. 


So poucos os que resistem a presso que o 
mundo exerce, e ainda conseguem colocar um pouco 
de si mesmo naquilo que dizem e fazem. 


(no dia 6 de maio, Mary Haskell e Gibran 
discutem pela primeira vez a idia de O 
Profeta, livro que iria torna-lo conhecido no 
mundo inteiro) 

Kahlil me disse: durante estes 18 meses, 
estive travalhando em algo que crescia em mim. 
Trata-se de um livro sobre 21 temas, sobre os 
quais eu j escrevi dezesseis. 

Kahlil narrou sua ideia de prologo, ainda 
no escrito: numa cidade mediterranea, um homem - 
um poeta, visionario, ou profeta - vive no campo. 
A cidade o ama, mas este amor no  suficiente 
para que as pessoas que ali vivem se aproximem 
dele. Elas entendem que sua presena ali  
temporria, e que um dia partir. Certa manh, um 
navio se aproxima. Ningum diz nada, mas todos 
sabem que est ali para buscar aquele homem. E, 
agora, como que vai deixa-los para sempre, todos 
se aproximam e pedem que ensine o que aprendeu 
durante aqueles anos de solido. Algum diz: 
explique-nos a Amizade, e assim por diante. 

Kahlil me leu algum destes trechos, e 
chamamos o livro de Conselhos(1). Ento me 
disse: 

Voc no acha que tudo que est a  o 
resultado de nossas conversas durante todos estes 
anos? 

Quando ele me descreveu o visionrio - ou 
profeta do Conselhos, e a relao dele com a 
cidade, me parecia que estava se referindo a si 
mesmo. 

 

 

 

 

(1)- ttulo que foi dado provisoriamente ao O Profeta 
aquela noite, e que - em algumas das cartas a seguir, ser 
mantido. 


11 Maio 1918 (DM) 

 

Eu acho que voc deve continuar com aulas de 
pintura na escola, Mary - porque, desta maneira, 
os alunos podem visualizar o que esto 
pensando.Quando se projeta uma imagem de alguma 
coisa, ela jamais  esquecida. Ns somos filhos 
das formas e das cores, e aprendemos com elas. 

Eu vivo torturado porque as pessoas, - ao 
invs de usarem imagens - no param de falar 
nunca, e no posso interrompe-las a cada 
instante. Uma torrente de palavras, palavras, 
palavras est sempre jorrando, e mesmo assim 
ningum se d realmente conta do que est 
dizendo. 

J faz seis anos que voc e eu estamos 
pensando, falando, e trabalhando juntos. Mas, 
para ns, tudo faz sentido, porque estas idias, 
depois de serem apenas palavras, passaram a fazer 
parte de ns mesmos. Mas isto no  uma regra que 
se aplique a todos. 

Quero que Conselhos seja um livro simples. 
No faz mal se algumas partes forem duras ou 
amargas - o importante  que o meu personagem 
diga a verdade. 

 

 

 

1 Setembro 1918 (DM) 

 

Certa vez, notei um homem sentado perto de 
Jerusalem. Todas as vezes que eu passava ali, ele 
continuava no mesmo lugar. Perguntei ao meu guia 
quem era, e ele, rindo, disse que o velho tinha 
enlouquecido. 

Ento, resolvi aproximar-me, e perguntei. 

O que voc est fazendo? 

Estou olhando os campos, respondeu o 
homem. 

E o que mais? , eu quis saber. 

Isto no  suficiente para entender a 
vida? respondeu o tal homem a quem chamavam de 
louco. 

Vivemos lutando pelas coisas complicadas, e 
esquecemos que olhar os campos  mais do que 
suficiente para compreender Deus. 

 

17 de Novembro 1918 

 


H momentos em que a vida, aparentemente sem 
significado, parece ter mil sentidos ao mesmo 
tempo. Nosso corao est em todos os lugares, 
ns nos sentamos na beira do rio e bebemos suas 
guas mais profundas. Percebemos que a gua 
tambm tem sede, e nos est bebendo tambm; 
ento somos um s com o Universo. 

H muito tempo, eu disse: Deus est por 
detrs de mil vus de luz. Agora eu diria: o 
mundo acaba de passar por um destes vus, e Deus 
est mais prximo. 

Tudo est diferente. Os rostos nas ruas, nos 
trens, nos carros, mostram uma outra beleza. E 
no  apenas o final desta Guerra que envolveu 
toda a Europa. Tampouco  a vitria do lado a 
que pertencemos, mas a predominncia do espirito 
sobre o material - uma gota de leo, colocada h 
quatro anos no fundo do oceano, finalmente sobe e 
encontra a luz. 

Mas por que eu escrevo isso para voc, Mary? 
Voc sabia tudo que ia acontecer. E voc, mais do 
que qualquer pessoa neste mundo, foi quem 
alimentou minha f nesta vitria. 


 

 

 

Em 1919, o contacto pessoal entre os dois 
se estreita muito, e quase no existe nenhuma 
correspondncia significativa entre Mary Haskell 
e Kahlil Gibran. So registradas apenas tres 
cartas; ela pede que ele desenhe um anel para 
suas alunas usarem. A terceira carta acopanha o 
modelo do anel - uma mo aberta com uma rosa em 
sua palma - explicando o simbolismo do que fez. 
H tambm uma nica entrada no dirio de Mary 
Haskell, onde ela comenta um encontro com Kahlil, 
e ele diz que ir publicar no prximo ano o livro 
Conselhos, que resolveu intitular de O 
Profeta. 


 

 18 de abril, 1920 

 

Todo meu ser est completamente impregnado 
por O Profeta. Neste livro eu aprisionei certos 
ideais, e meu desejo de vive-los de acordo com o 
que escrevi. Na verdade, eu tenho tentado 
encontrar O Profeta desde que tinha 14 anos, 
mas s agora estou consciente das verdades que 
foram aparecendo em minha vida, e se manifestaram 
neste livro. Ele est mudando tudo dentro de mim. 

Eu amo as pessoas mais que nunca, embora 
contine me sentindo s, e sabendo que no sou uma 
boa companhia para os outros - exceto para voc. 

Mas aprendi a amar. Quando no estamos 
amando, ou quando no nos sentimos belos, 
procuramos estar sempre ocupados. E no deixamos 
que nosso crescimento interior acontea, porque 
tentamos controla-lo. 

Que tolice! Nunca devemos dizer: eu quero 
crescer nesta direo, ou agora eu vou me 
dedicar percorrer esta outra direo. 

Ns precisamos nos entregar ao crescimento 
da maneira como ele surge, e nos conduz. 

 

 

 

18 de abril 1920 

 

A vida  irnica. Muitas vezes, quando 
tentamos ser delicados e tolerantes, ofendemos os 
outros. 

 preciso muito cuidado ao falar com as 
pessoas. Se eu disser a algum -  compreendo que 
voc pensa assim, mas quando tiver mais 
experiencia, entendera melhor este tema - a 
pessoa fica furiosa, vira as costas e vai embora. 

Entretanto, se eu disser: voc est dizendo 
bobagem, esta mesma pessoa `me dar toda a 
ateno, e gastar o resto do seu dia discutindo 
comigo. 

20 de Abril 1920 (DM) 

 

Estou trabalhando na parte de O 
Profetaonde falo do crime e do castigo. No 
consigo ser indiferente aos criminosos, e leio 
sempre as pginas policiais. Quando vejo algo 
sobre um falsrio, sinto-me como se tivesse 


participado da falsificao. Uma manchete sobre 
um crime faz com que me sinta tambm o assassino. 

Cada vez que um ser humano faz algo errado, 
todos ns tambm fazemos; o que acontece ao redor 
da Terra  um reflexo das emooes de cada um de 
seus habitantes. 

Ns estamos em todos, e todos esto em ns. 
O poeta e o criminoso vivem no corao de cada 
homem. 

21 Abril 1920 (DM) 

 

O amor  consciente de si mesmo.  um 
impulso criativo; no tem outro propsito alm 
de preencher a si mesmo. 

O ser humano  perfeito em suas 
imperfeies. Preciso aceitarque, quando algum 
me parece estar se movendo muito devagar em 
determinada direo,  porque esta  sua nica 
maneira de percorrer aquele caminho. 

A mesma coisa acontece com o amor. 

 

20 Maio 1920 (DM) 

 

Tive uma noite excelente na Sociedade de 
Ciencias e Artes. W.B. Yeats (1) estava l com 
suaesposa,e leu trechos de seus poemas. 

Ela  muito estranha; enquanto Yeats 
recitava seus versos, parecia retrada e 
inexpressiva. Entretanto, quando nos sentamos 
para jantar juntos, ela mostrou-se viva, 
interessada, e extremamente culta.Parece que 
Yeats entende a importncia desta mulher em sua 
vida. 

O propsito da existencia sempre se 
manifesta atravs do lado feminino;  a nica 
maneira que o homem tem de compreender sua 
misso. 

 

 22 de maio 1920(DM) 

 

Ns primeiro vemos qualquer novidade como 
uma diverso a mais. Aos poucos, esta novidade 
passa a ser compreendida - e ento a esquecemos. 
Entretanto, na medida em que a esquecemos, ela 
penentra em nosso inconsciente, e nos faz um 
pouco diferentes do que ramos antes. 

Tudo que j foi vivido por ns, jamais se 
perder. No consigo pensar num fim para nada 
nesta Terra. 


 Ento, por que tentar entender o princpio? 

 

 

20 de agosto 1920 (DM) 

 

A nica maneira de justificar os nossos dias 
 amando e trabalhando com o melhor que existe 
dentro de ns. Precisamos usar o corao do 
corao, e ver o mundo com olhos por onde 
lgrimas - sejam elas de alegria ou tristeza - 
estejam sempre jorrando. 

Eu conheo poetas que nunca se mostram por 
inteiro, porque tem medo de que os reconheam, e 
terminem isolado; eles no gostam disto, porque 
no conseguem apreciar a prpria companhia. 

Paradoxalmente, esta solido  algo que 
assusta e atrai os homens. Eu, por exemplo, 
adoro estar s. Quando estou cercado de gente, e 
mesmo assim consigo reconhecer minha prpria 
solido, sou capaz de amar todos a minha volta, 
com muito mais desprendimento. 

Mas, na medida que estas pessoas exigem que 
eu abandone minha solido interior - para que 
elas mesmas no se sintam szinhas - ento, a 
magia deste amor desaparece. 

 

27 de agosto, 1920 (DM) 

 

 Sou mesmo um sujeito teimoso. Se todas as 
pessoas da Terra se reunissem para me dizer que a 
alma morre junto com o corpo, isto no mudaria em 
nada a minha convicao - porque sei que minha 
alma no morrer. 

Estou agora trabalhando na parte de O 
Profetaonde escrevo sobre o casamento. Ento 
digo: que o homem e a mulher sejam capazes de 
encher o clice um do outro, mas que no bebam da 
mesma taa. O que quero dizer? Que um casal no 
pode viver a mesma vida. Quando se comea a fazer 
isto por amor, termina-se descobrindo que este 
caminho conduz ao dio. 

 

3 de setembro 1920 (DM) 

 

Alguma coisa que escrevi no passado j no 
me parece o reflexo do que penso hoje. 
Entretanto, eram reais para mim quando as 
coloquei no papel, e devo deixa-las ali. 


A minha vida  como uma caminhada at a 
Cidade Sagrada. 

A minha obra  o estranho que encontro no 
primeiro dia de jornada. 

 Neste primeiro contacto, este estranho me 
parece triste e amargo. 

No dia seguinte, ele est menos amargo, e 
ns estamos mais prximos da Cidade Sagrada. 

 No terceiro dia, ele j comea a ficar 
alegre; e vai melhorando no quarto, no quinto, e 
no sexto dia. 

No stimo dia de jornada, j comea a falar 
de astros e estrelas. E quando chegamos a Cidade 
Sagrada, j no o encontro mais, porque ele vai 
direto ao templo e se oferece a Deus. 

 

 

3 de setembro, 1920 (DM) 

 

A intensidade da vida depende de como a 
olhamos. 

H pintores que iriam achar belo este prato 
de uvas que se encontra sobre a mesa; e tentariam 
pinta-las com todo o seu frescor, sua cor, sua 
luz e sua forma. 

Ens, quando olhamos o quadro que resultou 
disto, devemos pensar nos vinhedos, como eles 
cresceram, como foi a colheita. Pensar na loja 
onde o vinho destas uvas ser vendido, e nas 
bocas que o provaro; entender que cada uma delas 
veio de um lugar diferente, embora estejam todas 
no mesmo prato.Reparar que este prato  chines, e 
recordar tudo que aprendemos sobre a China. 

Ento nossos olhos se dirigem  mesa onde o 
prato repousa, e pensamos de que madeira  feito, 
como era a rvore de onde foi tirada, quem a 
cortou, e onde vivia o lenhador com sua famlia. 

Ver as coisas desta maneira enriquece a 
imaginao, e nos abre para um mundo muito mais 
rico. 

 As crianas deviam aprender a fazer isto. 

 

7 de setembro de 1920 (DM) 

 

Penso em Cristo. 

 No segundo ou terceiro sculo aps a sua 
morte, ningum era forte o suficiente para comer 
o poderoso alimento que nos deixou; ento 
procurava-se nos Evangelhos apenas as partes mais 
leves, ou as que podiam ser melhor ensinadas aos 


homens. Ningum, naquela poca, podia encarar 
diretamente a gigantesca tarefa que Cristo nos 
entregara. 

O maior ensinamento de Cristo : o Reino dos 
Cus est dentro de ns. Pode considerar-se 
pobre um homem que tem este Reino em seu corao? 

Se eu e voc no fossemos nada, ns 
seriamos duas nulidades juntas. E o que teramos? 
O vazio na alma. Se a humanidade inteira comea a 
pensar que no representa grande coisa, o mundo 
no avanar nunca. 

Mas o Reino dos Cus est dentro de ns. 
Ento,  preciso acalmar-se, deixar o centro de 
nossa existencia sossegar, e neste momento 
descobrir que o amor existe. 

10 de setembro 1920 (DM) 

 

Para viver,  preciso coragem. Tanto a 
semente intacta, como aquela que est rompendo 
sua casca tem as mesmas propriedades. Entretanto, 
s a que est rompendo sua casca  capaz de 
lanar-se na aventura da vida. 

Esta aventura requer uma ousadia nica: 
descobrir que no se pode viver atravs da 
experiencia dos outros, e estar disposto a 
entregar-se. No se pode pegar os olhos de um , 
os ouvidos de outro, para saber de antemo o que 
vai acontecer; cada existncia  diferente da 
outra. 

Seja o que for que me espera, eu desejo 
estar com o corao aberto para receber. Que eu 
no tenha medo de colocar o meu brao no ombro de 
algum, at que ele seja cortado. Que eu no tema 
fazer algo que ningum fez antes, at que seja 
ferido. Deixe-me ser tolo hoje, porque a tolice  
tudo que eu tenho para dar esta manh; eu posso 
ser repreendido por isso, mas no tem 
importncia. Amanh, quem sabe, eu serei menos 
tolo. 

Quando duas pessoas se encontram, elas devem 
ser como dois lrios aquticos que se abrem lado 
a lado, cada uma mostrando seu corao dourado, e 
refletindo o lado, as nuvens, e os cus. No 
consigo entender porque um encontro sempre gera o 
oposto disto: coraes fechados e medo de 
sofrimento. 

Cada vez que eu estou com voc, conversamos 
por quatro, seis horas seguidas. Se pretendemos 
passar juntos todo este tempo,  importante no 


tentar esconder nada, e manter as ptalas bem 
abertas. 

14 de setembro 1920 (DM) 

 

A energia divina criou tudo que existe, e 
colocou um grito de vida em cada coisa. Voc no 
pode ignorar este grito, que quiser encontrar 
Deus; voc tem que ajudar a busca, participando 
da vida. 

A solido  uma caracterstica do ser 
humano, mas o grito da vida est ai, em todos os 
cantos, para quem quiser escutar. Toda vez que 
algum se aproxima de mim e diz: ser que voc 
acredita mesmo em Deus? , eu entendo que esta 
pessoa precisa desesperadamente de um motivo para 
acreditar tambm. 

 Mas a existncia de Deus no pode ser 
demonstrada, e eu nunca tentei convencer ningum 
disto. H muitos conceitos de Deus, nenhum serve 
para nada. 

 Ningum pode ser ajudado a compreender o 
invisvel -  preciso que cada um parta para sua 
prpria aventura. 

20 de setembro 1920 

 

 

Minha amada Mary, sinto muito que sua viagem 
ao Egito tenha sido adiada. Mas o Egito j est 
ali h seis mil anos, e continuar l. 

Por que, ento, apressar-se? O que a poeira 
do tempo deixou naquele pas,  prticamente 
imutvel. 


 

No dia 10 de outubro de 1920, Mary Haskell 
escreve uma longa carta a Kahlil Gribran, onde 
demonstra profunda tristeza. Diz que os pais dos 
alunos da sua escola, pediram que retirasse os 
desenhos de Kahlil das paredes do prdio. Alegam 
que os temas abordados so erticos, embora as 
pinturas se refiram  mitologia e passagens da 
Bblia. 

O qe sinto nas figuras nuas,  que as 
meninas deviam estar profundamente honradas de 
poder comtempla-las, diz ela em sua carta. Esta 
contemplao as faria entender que nada existe de 
perverso na nudez, e que o corpo  algo que foi 
feito para que nos sintamos confortveis nele. 

Se a simples viso destes corpos ns 
despertar o desejo nestas garotas, o que h de 
errado nisto? Temos que nos envergonhar de nossos 
desejos? Por que no satisfaze-los? 

O medo ( que os pais tem) destas pinturas  
algo assustador. Faz-me crer que suas mentes so 
muito complicadas, e isto pode contagiar a 
prxima gerao. 


11 de outubro 1920 

 

Minha adora Mary, acho que a coisa mais 
inteligente a fazer no momento  tirar estas 
pinturas da. Saber que o meu trabalho est lhe 
causando problemas  uma fonte de dor para mim. 

No podemos ensinar a ningum a pureza de um 
corpo n - isto  algo que as pessoas devem 
descobrir por si mesmas. No podemos conduzir os 
outros a entender o verdadeiro significado da 
vida; eles precisam descobrir sozinhos que 
algumas partes da rvore sobem para o cu, e 
outras se enterram na terra. 

E por que a mesquinhez alheia pode causar 
qualquer tipo de conflito entre ns? O que as 
pessoas sentem no deve nos afetar, nem turvar 
nosso horizonte. 

3 Janeiro 1921 (DM) 

 

Mary, quero saber se voc tem idia de como 
conseguiu ampliar minha compreenso do mundo. 
Voc est sempre me provocando, e me obriga a 
descobrir novas coisas. 

O amor - como um riacho - deve estar em 
constante movimento, e voc faz isto comigo. Mas 
o que acontece com a maioria dos casais? Eles 
acham que as guas do rio correm sempre, e no se 
preocupam mais. Ento, o inverno chega, e estas 
guas congelam; s a compreendem que nada nesta 
vida  absolutamente garantido. 

 

8 de fevereiro de 1921 (DM) 

 

Jesus tinha duas idias centrais: o Reino 
dos Cus e a justia na terra. Por causa desta 
segunda idia, os sacerdotes o mataram. 

Jesus percebeu o Reino dos Cus no corao 
dos homens - um mundo de beleza, de verdade, de 
intensidade - e se dispos a morrer por isto, 
pois acreditava que s o seu martirio nos faria 
entender a importancia deste Reino. 

 

Jesus podia ter salvado a si mesmo, 
simplesmente demonstrando aos sacerdotes que Ele 
no estava pedindo nenhum poder terreno para si. 
Mas, se recusando a morrer, seu sacrifcio no 
seria total; Jesus sabia que apenas as palavras e 
os ensinamentos no bastam. 

Ento resolveu entregar-se  crucificao, 
certo que a morte gravaria os seus ensinamentos 


nos discpulos -para sempre. Demonstrando sua 
coragem de no fugir dos perseguidores, 
conseguiria mante-los unidos, fiis ao que Ele 
viera ensinar. 

Tenho plena certeza do que estou dizendo, 
assim como estou certo que a decisao de morrer 
deve ter sido aceita por Jesus depois de uma 
intensa luta consigo mesmo. Ele morreu, e a idia 
do Reino dos Cus nunca mais se perdeu na 
escurido. 

 

12 de agosto 1921 (DM) 

 

A existncia no tem apenas seu aspecto 
fsico. As pessoas mais velhas podem estar muito 
mais vivas que as jovens, porque j 
experimentaram muito mais coisas. 

O problema com a velhice  que, por medo da 
morte que se aproxima, as pessoas passam a ter 
pavorde viver. No entendem que o final de uma 
etapa  que torna possvel o prximo passo; a 
Natureza jamais d saltos. Da mesma maneira que 
no quebra os galhos jovens, tampouco impede que 
uma rvore, velha e cansada, deixe de existir. 

Isto  o que chamamos de ordem natural das 
coisas. Muitas vezes eu me imagino depois da 
morte, retornando lentamente aos elementos do 
solo;  a grande entrega, que muda tudo em 
silncio e calma, para que as coisas possam 
renascer. A idade prepara meu corpo para 
fertilizar de novo a terra de onde vim. 

O outono do corpo conduz ao inverno, e o 
inverno  necessrio para que uma nova primavera 
surja. Da mesma maneira, o meu esprito se move 
de uma etapa para outra, sabendo que cada estao 
tem suas qualidades e seus defeitos. 

8 de dezembro de 1921 

 

Minha adorada Mary, eu gostaria de poder 
imaginar uma grande cidade as escuras. New York 
seria to impressionante e bela como as 
pirmides, se pudesse ser vista apenas com o 
brilho das estrelas e da lua - mais nada. 

Que grande diferena entre a luz que vem de 
cima e a que vem de baixo! 

 

12/14 de Janeiro, 1922 

 

O casamento  a melhor maneira de dar, e dar 
mais ainda. Mesmo assim, no podemos jamais 


esquecer que os seres humanos estaro sempre 
separados. 

O perodo antes do casamento  aquela poca 
maravilhosa na qual nos aproximamos de nossa 
amada; conversamos, aprendemos o que a deixa 
feliz, e descobrimos como fazer para que esta 
felicidade nunca se distancie. 

 

No podemos deixar que o contacto opressivo 
da manh, meio-dia, tarde, noite acabe com este 
encanto. Para que o romantismo inicial sobreviva, 
 necessrio que cada pessoa tenha parte de seu 
tempo apenas para si mesma. Nenhum de ns  sbio 
o suficiente para tomar uma deciso que interfira 
na vida do outro. 

Basta observar apenas uma lei - a 
honestidade - e tudo ser exatamente como 
sonhamos. 

 


 

 

 

14 de janeiro 1922 

 

Procure achar o que h de melhor numa 
pessoa, e diga isto a ela. Todos ns precisamos 
deste tipo de estmulo; cada vez que meu trabalho 
 elogiado, eu me torno mais humilde, porque no 
me sinto ignorado ou indesejado. 

Todo mundo possui algo que merece ser 
elogiado. Elogios significam: compreenso. Somos 
excelentes seres humanos em nosso ntimo, e 
ningum  melhor que os outros; aprenda a ver a 
grandeza de seu prximo, e ver tambm sua 
prpria grandeza. 

 

 

14 de abril de 1922 (DM) 

 

Sempre que dois amantesse encontram , na 
verdade so quatro vozes queconversam. Os dois 
seres visveis tem uma relao muito diferente 
dos dois seres invisveis. 

 Eles podem estar discutindo violentamente 
no plano fsico, mas suas almas esto em paz, e 
querendo se aproximar mais uma da outra. 

 

 

 

25/28 abril 1922 (DM) 

 

A cegueira de Mini  a coisa mais normal e 
natural para ele. No apenas ele recebe mais 
afeto do que as pessoas ditas normais, como 
tambm  capaz de expressar, com muito mais 
liberdade, o que sente em seu corao,. O que, 
para voc parece uma maldio, para ele  um 
milagre. 

Ele sempre interpretar o mundo de acordo 
como seu Reino pessoal. No creia que um invlido 
 algum que no vale nada. 

Pessoas que esto num mundo diferente do 
nosso podem ser os melhores operrios na 
construo deste planeta - porque seus olhos vem 
coisas que somos incapazes de enxergar. Suas 
mentes interpretam o Universo de modo distinto, e 
o redesenha ao seu modo. 


Ns no somos os geradores da luz - mas 
apenas os raios deste Grande Brilho. 

 

 

 

 

9 de maio de 1922 (DM) 

 

O doutor Smith diz que no h nada de errado 
comigo, apesar das constantes palpitaes. Apenas 
preciso cuidar melhor do meu corao - que tenho 
mantido sob constante tenso durante quase vinte 
anos. Ele disse: trabalha, faz o que tem 
vontade, escreva o que lhe passar pela cabea, 
mas no procure terminar tudo ao mesmo tempo. 
Dedique apenas quatro horas do seu dia a isto. 

Entretanto, minha dor no  fsica. Existe 
algo em mim - como j disse antes - que no 
consegue sair de jeito nenhum. Tudo que fao me 
parece falso, perto daquilo que poderei fazer.  
como se h anos esperasse um filho, e agora esta 
criana no consegue nascer; estou sempre num 
constante trabalho de parto, e mesmo assim nada 
surge. 

Se esta coisa que preciso manifestar ao 
mundo no aparecer antes de minha morte, eu 
tornarei a renascer, e renascerei tantas vezes 
quantas forem necessrias at que consiga 
exprimi-la. 

Sei que voc me diz sempre coisas 
maravilhosas, Mary. Mas cada vez que as escuto, 
sinto-me ferido - porque voc fala do que eu 
fiz, e s eu conheo aquilo que sou capaz de 
fazer. 

 

 

 

19 de maio 1922 (DM) 

 

Os poetas tem que escutar o ritmo do mar. 

 Este rimto est presente em todos os 
escritos do Velho Testamento, e quando voc 
oouve, algo mais surge alm dos sons. Ento voc 
torna a escutar, e de novo outra interpretao 
nasce, um pouco diferente que a anterior. 

Assim so as ondas. Voc v como uma delas 
vem com toda a sua fora e quebra na areia, 
carregando densas espumas com ela. Ento, uma 
pequena marola volta pra o oceano, com um rudo 


menor - uma espcie de barulho secundrio; vem 
uma segunda onda que se encontra com esta marola. 
Neste momento, acontece uma pausa. Logo uma nova 
onda vir, e o fluxo e refluxo continuaro para 
sempre. 

Esta  a msica que precisamos aprender - 
as coisas sempre vo e vem. Mas no podemos 
deixar de lado a melodia do vendo, ou do 
farfalhar das ervas no campo e das folhas nas 
rvores. 

 

 

 

 

30 de maio 1922 (DM) 

 

Estou pensando em incluir em  O Profeta um 
texto sobre o ato de receber. Todo mundo tem 
vontade de dar algo - e geralmente ningum 
aceita. Eu posso ter uma casa, e convidar gente 
para visita-la: elas virao, comerao o que eu 
oferecer, aceitaro minhas opinies, mas jamais 
conseguiro receber o Amor que gerou o convite. 

O amor  aquilo que mais desejamos ter, e 
mais desejamos dar. E ningum nota que ele est a 
toda hora sendo oferecido e recusado. 

 

 

 

 

6/16/17 de junho 1922 (DM) 

 

Voc  muito generosa, Mary (nas cartas mais 
recentes, ela mostra constante preocupao pelo 
precrio estado de sade de Kahlil) Mas existem 
duas coisas que nunca devem ser esquecidas: 
pacincia - isto , deixar que as coisas sigam 
seu rumo - e fidelidade ao que se quer. 

As pessoas gostam uma das outras porque se 
parecem, ou porque so completamente diferentes. 
Para os povos primitivos, a morte no significava 
nada; eles costumavam reverenciar seus 
ancestrais, e levavam comida at o lugar onde 
estava enterrados. Viam tudo de uma maneira 
simples e direta, sabendo que cada coisa neste 
mundo se transforma em algo diferente - mas nunca 
deixa de existir. Um corpo apodrece, e depois 
vira uma rvore. Nem os povos primitivos, nem os 
homens mais iluminados acreditam na morte. 


Deus me deu muito nesta vida, atravs de 
voc. Como deve ser bom para voc saber que est 
agindo como se fosse as mos de Deus! Eu conheo 
esta mo, sou capaz de toca-la e de receber tudo 
que me est oferecendo. Gosto de ser um pequeno 
seixo na margem de um grande rio. 

Que Deus te abenoe, minha amada Mary. E que 
Seus anjos estejam com voc, seja na terra ou no 
mar. 

11 setembro 1922 (DM) 

Cada amor  sempre o maior amor do mundo, e 
o mais importante. O Amor no  algo como uma 
torta, que podemos dividir em pedaos maiores ou 
menores; ele  um s. E tudo  amor. 

Claro que voc pode dizer a uma pessoa: ele 
 a coisa que eu mais quero neste mundo. Mas 
todos que amam se sentem no direito de dizer isto 
- com toda razo. 

Por isso, posso afirmar sem medo:a nossa 
relao  o que de mais belo aconteceu na minha 
vida. 

 

 

30 de setembro a 7 de Outubro 1922 (DM) 

 

 

 A diferena entre um profeta e um poeta  
que o primeiro vive aquilo que ensina. 

O poeta no faz isso; ele pode escrever 
versos magnficos sobre o amor, e mesmo assim, 
continuar sem ser amado. Quando uma pessoa aceita 
no ser amado, termina transformando-se em algum 
impossvel de se amar. 

A arte  a tentativa de exprimir o que a 
humanidade ama. Em todas as pocas, ns amamos a 
beleza. Nem tudo que  belo  bom, mas toda 
bondade  bela. 

7 de outubro 1922 (DM) 

 

Sinto-me um pouco sua me e seu pai - e 
creio que este sentimento  recproco. Viramos 
uma pessoa s, Mary. Voc entrou na minha alma - 
e se eu quiser corta-la, estarei destruindo a mim 
mesmo. 

Esta relao no nos pertence mais. Eu no 
consigo mais imaginar-me criando algo se voc no 
est presente; um amor precisa ser bastante forte 
para poder experimentar isto - mas eu acho que o 
perodo em que sofri por sua causa me ensionou a 
absorver melhor esta idia. 


Penso mesmo que, sem este perodo de 
sofrimento, nada seria to intenso e belo como  
agora. 

 

 

 

26 e 28 de dezembro 1922 (DM) 

 

Em toda a minha vida, s conheci uma mulher 
com quem eu me sentisse intelectual e 
espiritualmente livre, e pudesse ser apenas eu 
mesmo: voc. 

O momento mais divino do ser humano  quando 
ele  capaz de deslumbrar-se com a vida - com a 
totalidade da existncia, na sua forma ntegra e 
pura. Em momentos de grande paixo amorosa, 
muitos homens conseguem ter esta viso. 

Encontro em voc tudo que buscava - um 
espirito que fez minha alma levantar vo, que 
mostrou uma nova luz sobre coisas antigas, que 
oferecesse seu colo para que minha cabea pudesse 
descansar. Voc est mais prxima agora do que 
antes, e sinto que Deus manifesta-se em tudo que 
nos une. 

 

26/27 de maio 1923 (DM) 

 

O casamento no permite a ningum escravizar 
o outro - exceto naquelas reas onde voc se 
permite ser subjugado. Tampouco d outra 
liberdade alm daquela que voc resolveu 
permitir. S podemos receber aquilo que damos. 

Para as pessoas inteligentes, a base do 
casamento  uma genuna amizade, onde se luta 
pelos prprios sonhos, e pelos sonhos da pessoa a 
quem se ama. Sem estes sonhos, a relao 
matrimonial se transforma numa srie de almoos e 
jantares na cozinha da casa. 

No existem duas almas iguais. Na amizade e 
no amor, os dois levantam as mos juntos, para 
agarrar uma coisa que no poderiam alcanar se 
estivessem separados. 

A velha frase da cerimnia do matrimnio -  
voc recebe fulano de tal, na sade ou na 
doena, etc. -  totalmente absurda. Como algum 
pode receber outro? Um dos dois estaria deixando 
de existir - ou, melhor ainda, os dois juntos 
perderiam sua prpria identidade. 

 


23 de junho, 1923 (DM) 

 

A dor pode ser criativa. 

Sejamos bem diretos, e analisemos os nosso 
caso: sofri muito por sua causa, e o mesmo 
aconteceu com voc. Mas foi graas a isto que 
descobrimos coisas - l dentro de ns - que 
sequer sabamos da exisncia. 

Algumas pessoas atingem o que h de melhor 
na vida usando a alegria. Outros usam o 
sofrimento. Mas a maior parte dos seres humanos 
no se permite a nem uma coisa, nem outra: ento 
no atingem nada, e apenas passam por esta vida. 


No dia 2 de otubro de 1923, Mary Haskell 
recebe o primeiro exemplar de O Profeta. Embora 
j tenha analisado, durante sua longa 
correspodncia, vrios trabalhos de Kahlil 
Gribran, sua analise foi sempre carinhosa mas 
contida. Desta vez, porm, ela se exprime de 
maneira proftica: 

Meu amado Kahlil, bendito seja, bendito 
seja, por ter dito tudo isto, e por ser um 
trabalhador capaz de dar  vida interior uma 
manifestao visivel. Bendito por ter a energia e 
a pacincia do fogo, do ar, da gua, e da rocha. 

Este livro ser um tesouro da literatura. 
Quando nossa alma estiver escura, ns o 
abriremos, para de novo encontrar o Cu e a Terra 
dentro de ns mesmos. Ele resistir a muitas 
geraes, que continuaro encontrando em suas 
pginas o que necessitam ouvir, e ser cada vez 
mais amado, a medida que os homens entendam 
melhor a si mesmos. 

Isto s aconteceu porque aquele que o 
escreveu  um grande amante (da vida). Voc sabe, 
Kahlil, que uma rvore pode morrer atingida por 
um raio, ou caindo numa floresta. No seu caso, o 
raio ir trazer vida, e se multiplicar no calor 
daqueles que o amaro no futuro. 

Muitos o amaro no futuro. Mesmo depois que 
seu corpo esteja transformado em p, eles o 
encontraro neste seu trabalho. Porque Deus est 
tambm visvel nestas pginas. 

Com o amor de Mary. 


23 de novembro 1923 

 

 Eu no poderia ter escrito O Profeta sem 
voc. 

Existem tres coisas que a vida me deu de 
melhor: a minha me, que me deixou partir; voc, 
que teve f em mim e no meu trabalho; e o meu 
pai, que despertou o guerreiro que habitava na 
minha alma. 


 

De 1923 em diante, Mary Haskell passa a 
viver em Savannah, Gergia, na casa de Florence 
Mini. Kahlil continua entre New York e Boston, 
trabalhando em vrios projetos ao mesmo tempo - 
como a continuao de O Profeta, e desenhos 
para exposies. Ele reclama que, por causa do 
sucesso alcanado pelo livro, j no tem quase 
mais tempo para dedicar-se  pintura. 

A relao de Mary com Florence Mini, vai 
ficando clara nas cartas que ela escreve a Kahlil 
Gibran. Depois de resistir por algum tempo, Mary 
finalmente decide casar-se com Mini. A partir 
desta data, quase no viaja mais para New York, e 
a correspondncia entre os dois torna-se esparsa. 

Gibran encontra Barbara Young, e os dois 
passam a manter uma relao constante. Young 
escrever anos mais tarde O Homem do Lbano, 
uma interessante biografia do escritor. 

A sade de Kibran, que j no era boa, 
comea a deteriorar-se. 


22 de abril de 1924 

 

Minha amada Mary: 

espero, de todo o meu corao, que tudo 
esteja bem com voc. 

Quanto a mim, tudo corre como devia. Eu 
trabalho um pouco todos os dias, fazendo algum 
desenho ou escrevendo algo em rabe. Mas passo a 
maior parte do meu tempo andando para cima e para 
baixo neste estdio, sonhando e pensando com 
lugares distantes, idiasainda envoltas numa 
nvoa que no consigo entender. 

As vezes eu sinto que j no tenho mais 
forma. Parece que sou uma nuvem, prestes a 
transformar-se em chuva ou neve. 

Voc v, Mary, comeo a viver muito acima do 
cho. No passado, eu era apenas uma raiz, e agora 
- que estou livre - j no sei o que fazer com 
tanto ar, luz, e espao. J escutei histrias de 
pessoas que passaram tanto tempo presas, que a 
primeira coisa que fazem ao sair da cadeia  
cometer um crime, porue se desacostumaram a viver 
em liberdade. 

Espero no ter que voltar para a cadeia, 
Mary, porque Deus  uma benao. Que Ele encha o 
seu generoso corao com Sua luz sagrada. 

Mesmo com voc distante, antes de dormir 
sempre pego o meteorito que voc me deu, e toco 
sua superficie; isto me d consciencia dos 
milhares de anos e das imensas distancias. 

 


 

WESTERN UNION 

 

TELEGRAMA 

 

1931 ABRIL 12 11:28 AM 

 

KAHLIL FALECEU NA SEXTA A NOITE. VAMOS LEVA-LO 
PARA BOSTON NA SEGUNDA. ESCREVA PARA 281 FOREST 
HILLS ST. MARY GIBRAN 

 


 

 

 

Minha adorada Mary: 

que voc seja abenoada para sempre, 
por tudo de bom que me tem dado. Sempre 
que voc conversa comigo, sinto uma dor 
deliciosa em meu corao. 

Voc est sempre me apontando o topo 
de uma montanha, e dizendo: quando Kahlil 
chegar ali? Cada vez que diz isto, eu 
escuto por detrs de suas palavras, uma 
outra voz dizendo: eu gostaria que Kahlil 
chegasse ali amanh. 

 bom saber que a montanha possui um 
topo. Melhor ainda  ter certeza de que 
sua bem-amada o quer ver ali amanh. 

Minha vida  apenas um conjunto de 
notas musicais que o seu corao 
transforma em melodia. Que sejamos sempre 
capazes de viver tudo o que h de sagrado 
em cada instante, 

Com todo o amor de 

 

Kahlil 

 

 


